03-18, Cognitive Accessibility
1. Problema de Engenharia
A11y técnica (02-02) e testing (03-17) cobrem cegueira, baixa visão, surdez, mobilidade reduzida. Mas há um espectro maior, disabilities cognitivas: dyslexia, ADHD, autism, anxiety, low literacy, working memory limitations, post-trauma fog. WHO estima 15-20% da população tem alguma diferença cognitiva relevante. WCAG 2.1 cobre superficialmente; WCAG 2.2 expande; WCAG 3 (draft) será central.
Engineering ignora porque é difícil testar com tooling. Não há axe-cognitive. Métricas são qualitativas: leitura clara, instruções compreensíveis, time limits razoáveis, error messages humanos, redundância de canais. Mas o impacto é massivo: usuário com ADHD que abandona checkout porque tela bagunçada custa revenue real; pessoa com dyslexia que falha em entender política de cancelamento gera churn + ticket de suporte; idoso que se confunde com microcopy enviesado vira reclamação de mídia.
Este módulo é a11y cognitiva como prática. Plain language, reading complexity, working memory load, attention budget, time tolerance, error recovery, distraction reduction, redundant signals, neurodivergent UX. Plus testing methods (cohort interviews, content scoring) que substituem o axe-engine.
A11y cognitiva também é leverage de produto. Plain copy ranks melhor em SEO, reduce support load, melhora conversão pra todos os usuários (efeito curb-cut: rampas de acessibilidade ajudam carrinho de bebê, mala, idoso). É win-win se feito direito.
2. Teoria Hard
2.1 WCAG cognitive: o que está coberto vs gap
WCAG 2.1 / 2.2 cognitive criteria (não-exaustivo):
- 2.2.1 Timing Adjustable: user pode estender ou desabilitar.
- 2.2.6 Timeouts (2.2): aviso antes de timeout que perde dados.
- 3.1.5 Reading Level: AAA pede equivalent de 9º ano.
- 3.2.4 Consistent Identification: components iguais funcionam iguais.
- 3.3.5 Help: contextual help disponível.
- 3.3.7 Redundant Entry (2.2): não pedir info já dada.
- 3.3.8 Accessible Authentication (2.2): não exigir cognitive function pra login.
Maioria é AAA (mais raro de cumprir). Gap: nenhum criterio fala de attention, distraction, reading load, neurodivergence específica.
WCAG 3 (em draft) terá scoring system com cognitive central.
2.2 Espectro de disabilities cognitivas
- Dyslexia: dificuldade decoding text; lentidão de leitura; substituições.
- ADHD: attention regulation; distração por elementos; hyperfocus em wrong thing.
- Autism: literal interpretation, sensory overload em UI agitada, predictability needs.
- Dyscalculia: dificuldade com numbers e quantitative reasoning.
- Aphasia / dysphasia: dificuldade com language (pós-AVC, Alzheimer).
- Memory impairments: short-term, long-term variations.
- Anxiety: medo de errar, paralysis.
- Cognitive fatigue (post-COVID, MS, fibromyalgia): bandwidth reduzido transitoriamente.
- Low literacy: não-disability mas mesma stack de mitigations.
Cada um tem padrões de friction; tools de UI distintos.
2.3 Plain language
Princípios (Plain Language Movement, plainlanguage.gov):
- Active voice > passive.
- Short sentences (15-20 words avg).
- Common words; substitua jargon.
- 1 idea per sentence.
- Front-load important info.
- Bullet lists > prose para multi-step.
- Define termos técnicos uma vez.
Métricas de complexity:
- Flesch Reading Ease: 0-100, alto = mais fácil.
- Flesch-Kincaid Grade: nível escolar.
- Gunning Fog Index: idade-estimativa.
- SMOG: similar.
Tools: Hemingway Editor, textstat, readability lib JS. Target: 7º-9º ano pra audience geral.
2.4 Microcopy intencional
Microcopy (botões, errors, tooltips) é onde cognitive friction concentra:
Anti-pattern:
- "Submit" (vague).
- "An error occurred." (sem ação).
- "Are you sure?" (sem detail).
- "Field required" (qual?).
Pattern:
- "Confirmar pedido" (ação clara).
- "Não conseguimos cobrar seu cartão. Verifique o número e tente de novo." (problema + ação).
- "Apagar este pedido?" + "Sim, apagar" / "Cancelar" (specific + reversibility).
- Inline error em campo: "Email parece incompleto: faltou @" (specific).
UX writing é discipline, alguns times têm role dedicado (Stripe, Shopify).
2.5 Working memory budget
Miller's Law (1956): "magic number 7 ± 2", short-term memory holds ~5-9 items. Modern revision: closer to 4 chunks.
Implicações UI:
- Forms longas dividir em steps (≤ 5 fields per step).
- Wizards com progress indicator.
- Persist em backend partial input (não perder se tab fecha).
- Sumarizar info em momentos de decisão (review screen).
- Não reload mental state em refresh.
Sticky context: breadcrumbs, persistent navigation, "you are here".
2.6 Attention e distraction
Patterns que destroem attention:
- Auto-rotating carousels.
- Animações constantes (parallax forte, video bg).
- Pop-ups sem warning.
- Notifications interrompendo flow.
- Multiple simultaneous CTAs.
Mitigations:
prefers-reduced-motion honrado.
- Animation triggers controlados pelo user.
- 1 primary CTA por screen.
- Notifications batching ou opt-in.
ADHD specifically beneficia. Mas todos beneficiam, efeito curb-cut.
2.7 Time pressure e timeouts
Pressure causa errors em usuários cognitive:
- Session timeouts curtos sem warning.
- Countdown agressivo (compras flash).
- Multi-factor com codes que expiram em 30s sem clear indication.
Mitigations:
- Warning antes de timeout (1-2 min antes).
- "Stay logged in" simple.
- Scope timeouts ao mínimo necessário (sensitive ops mais curtas; reading mais longas).
- Time extension obvious.
WCAG 2.2.1 / 2.2.6 cobre. Implemente.
2.8 Error recovery
Erros cognitivos devastam confidence. Padrões:
- Specific error message (campo, motivo, ação).
- Inline validation (revele cedo, não em submit).
- Undo disponível (delete, send, etc.).
- Confirmações de ações destrutivas com clear consequence ("Apagar 12 pedidos. Não pode ser desfeito.").
- Forgiveness: permitir input variations ("(11) 99999-9999" vs "11999999999" same).
- Auto-save em forms longas.
Anti-pattern: 422 com "Validation failed" sem dizer o quê. Forçar user a iterar guess-and-check.
2.9 Predictability e consistency
WCAG 3.2.x:
- Same component looks same em telas diferentes.
- Mesmo botão em mesmo lugar.
- Behavior previsível em interações.
- Sem mudanças automáticas de context (formulário NÃO submeta em blur).
- Sem auto-redirect inesperado.
Autism e cognitive load especifically beneficiam. Surprise = cognitive cost.
2.10 Redundância de canais
Don't rely só em color, sound, motion, language. Combine:
- Erros: red + ícone + texto.
- Loading: spinner + "Aguardando..." + atualização de aria-live.
- Sucess: checkmark + cor + texto + announcement.
Pessoa color-blind, com aphasia, com cognitive overload, cada um perde um canal. Redundância protege todos.
2.11 Visual design pra cognitive
- Whitespace generoso: declutters, libera attention.
- Visual hierarchy clara: primário > secundário > tertiário.
- Contraste: WCAG AA não basta sempre; AAA helpful pra cognitive fadiga.
- Sans-serif e dyslexia-friendly fonts (OpenDyslexic, Atkinson Hyperlegible, Comic Sans surprisingly readable).
- Line spacing ≥ 1.5x, paragraph spacing ≥ 2x.
- Line length ≤ 80ch (66 ideal).
- Sem all-caps prolongado (slower reading).
- Italics sparingly.
Adaptable: user prefs pra spacing, font, contrast (Reader Mode dos browsers é template).
2.12 Numbers e dyscalculia
- Show units (
R$, kg, min).
- Format separators ("1.234.567" pt-BR vs "1,234,567" en-US, 02-19).
- Visual proxies (progress bar > "47% complete" alone).
- Approximations OK ("cerca de 5 minutos" vs "5 min").
- Money sempre em currency format, com símbolo.
- Don't force calc na cabeça (mostre subtotal, total, valor poupado).
2.13 Memory aids no produto
- Recently viewed / used lists.
- Saved items persistentes.
- Drafts auto-save.
- History da conta (orders, sessions).
- Confirmações por email com info repetida.
- Receipt screens com everything em uma view.
- Help inline em vez de docs externos.
- Glossário acessível pra termos do produto.
Reduz dependência de memória.
2.14 Authentication acessível
WCAG 2.2 SC 3.3.8:
- Don't exigir cognitive funct pra login.
- Sem CAPTCHAs cognitivos sem alternative.
- Suporte a password managers (autocomplete).
- Magic link / passkeys / OAuth como alternative.
- "Forgot password" simple.
- Sem MFA codes que expiram em 30s sem clear path.
Modern: passkeys (FIDO2) + biometric. Inclusive por design.
Tooling não pega. Métodos:
- Cohort interviews: contrate users com diversos cognitive profiles. Compense.
- Reading-level scoring: automate via textstat por release.
- Task-completion time measure.
- Heatmaps + scroll-depth: friction reveals.
- A/B com cognitive metrics: completion rate, error rate, time-on-task.
- Heuristic eval: NN/g 10 heuristics + cognitive checklist.
Tools: Maze, UserTesting, Userlytics, Lookback.
2.16 Content design role
Cognitive a11y precisa content design com peso. UX writer / content strategist / content designer. Deque, Stripe, GOV.UK, GOV.BR investem.
Em time pequeno: dev escreve copy, mas itera com PM/content-aware peer review. Estabeleça voice & tone guide.
GOV.UK design system docs são exemplares.
Trauma-informed UX (T-iD):
- Safety: clear permissions, no surprise charges.
- Trust: transparent policies.
- Choice: opt-in over opt-out.
- Empowerment: undo, control over data.
- Sensitive content warnings.
Health, financial, legal apps especialmente. Rule: never escalate user state without explicit consent.
Form é onde cognitive load concentra. Patterns:
- Inline validation.
- Field labels acima (não dentro placeholder).
- Show password toggle.
- Sane defaults.
- Don't force same data twice.
- Country/state pickers em vez de free text.
- Date format obvio (calendar picker default).
- Phone format mask sutil.
GOV.UK forms são canonical study.
2.19 Onboarding cognitive
Primeira experience é onde cognitive overload mata adoption.
- Progressive disclosure: revele complexidade ao longo do tempo.
- Contextual tooltips por feature.
- "Skip" para users experientes.
- Guided tour OPT-IN, dispensable.
- Sample data pra explorar.
- "Reset to defaults" reachable.
Anti-pattern: 7-step modal forçado em primeiro login.
2.20 Métricas de produto cognitive-aware
Track:
- Time-on-task em fluxos críticos.
- Error rate per form.
- Help/support contacts per feature.
- Drop-off em wizards.
- Reading level médio do content.
- Frequency de "undo" usado (sinal de bom undo + boundaries claras).
Reduzir friction cognitive frequentemente bate como melhor conversion + lower CAC payback.
3. Threshold de Maestria
Você precisa, sem consultar:
- Listar 5 categorias de cognitive disability e patterns de friction.
- Aplicar Flesch-Kincaid em texto e ajustar.
- Listar Miller's Law e implicação em form design.
- Listar 4 anti-patterns de attention destruction.
- Justificar redundância de canais com 3 sinais simultâneos.
- Estruturar error recovery (specific message + inline validation + undo).
- Diferenciar trauma-informed design de standard UX.
- Listar 4 acessibilidades em authentication.
- Justificar progressive disclosure em onboarding.
- Identificar quando cognitive a11y bate como ROI cost reduction (support, churn).
- Diferenciar 03-17 (automated) e 03-18 (human-driven cognitive).
4. Desafio de Engenharia
Refactor da Logística pra cognitive accessibility.
Especificação
- Audit de copy:
- Score Flesch-Kincaid em cada tela. Target médio ≤ 9th grade.
- Identifique 20 microcopy items pra reescrever (errors, buttons, modals, empty states).
- Doc
COPY-AUDIT.md com before/after.
- Forms refactor:
- Wizard onboarding lojista dividido em 3-5 steps.
- Inline validation em todos os fields críticos.
- Auto-save partial input em backend.
- Date/phone/CPF com input mask + format error specifc.
- Error messages:
- Cada error tem: 1) o que falhou, 2) por que, 3) o que fazer.
- Inline + toast + (se grave) email.
- Undo / forgiveness:
- Delete order: 5s undo toast antes de commit real.
- Bulk operations (cancel multiple): confirmação clear + undo.
- Redução de attention friction:
- 1 primary CTA por screen.
prefers-reduced-motion honrado em todas anims.
- Toasts não-disrupive (não cobrem main content).
- Time accommodations:
- Session timeout warning 2 min antes.
- "Stay logged in" simples.
- 2FA/MFA codes com 5 min lifetime + clear countdown.
- Memory aids:
- "Recently viewed orders" no dashboard.
- Email confirmation com info repetida.
- Receipt screen com todos detalhes.
- Reading prefs:
- Toggle: tamanho de texto, line spacing, dyslexia-friendly font (OpenDyslexic ou Atkinson Hyperlegible).
- Persist em user prefs.
- Testing manual:
- 5 testers diversos (1 dyslexia self-id, 1 ADHD, 1 idoso, 1 low literacy, 1 controle).
- Tarefas: criar pedido, cancelar pedido, encontrar histórico, alterar endereço.
- Coletar metrics: time, errors, frustration verbalizada.
- Report
COGNITIVE-A11Y-TEST.md.
Restrições
- Sem auto-rotating carousels.
- Sem auto-redirects sem clear consent.
- Toda animation com
prefers-reduced-motion fallback.
- Time limits documentados; warnings obrigatórios.
- Copy revisada via textstat em CI (warning se grade > 11).
Threshold
- Audit doc + 20 microcopy items refeitos.
- Form wizard funcional.
- Undo demoado em 3 ações destrutivas.
- 5 user tests realizados, com report.
- Reading prefs functional.
Stretch
- Voice control alternative pra navegação.
- Reader mode próprio (ou link a reader integrado de browser).
- Plain-language toggle: alternative content em "easy read" pra termos legais (políticas).
- Cognitive walkthrough estruturado com PMs e designers.
- Color-blind simulator em design system.
- Stress-test mode: simular distraction, time pressure pra calibrar.
5. Extensões e Conexões
- Liga com 02-02 (a11y básica): cognitive complementa visual/motor/auditory.
- Liga com 02-19 (i18n): plain language atravessa idiomas.
- Liga com 03-15 (incident response): erros legíveis em incident communication.
- Liga com 03-17 (a11y testing): automated pega 30-40%; cognitive é o resto.
- Liga com 04-05 (API design): error response humanos consumidos por client copy.
- Liga com 04-16 (product/business): cognitive a11y bate como growth lever (conversion, churn, support load).
- Liga com CAPSTONE-producao: integration profunda em v2.
6. Referências
- WCAG 2.1 / 2.2 cognitive criteria.
- WCAG 3 draft (w3.org/TR/wcag-3.0).
- plainlanguage.gov + GOV.UK design system docs.
- "Cognitive Accessibility Roadmap": W3C Cognitive Accessibility Task Force.
- "Don't Make Me Think": Steve Krug.
- "Forms that Work": Caroline Jarrett, Gerry Gaffney.
- "Strategic Writing for UX": Torrey Podmajersky.
- "Inclusive Design Patterns": Heydon Pickering (re-leitura cognitive).
- NN/g (Nielsen Norman Group): research articles em cognitive UX.
- "The Inclusive Design Toolkit": Cambridge Engineering Design Centre.
- Microsoft Inclusive Design Toolkit.
- "Accessibility for Cognitive Disabilities": Deque University course.
- Hemingway Editor, textstat lib.
- "Calm Technology": Amber Case.
- "Trauma-Informed Design": Melissa Eggleston.
- GOV.BR design system: exemplo brasileiro.